O castelo de Alfeizerão: História e Herança

1. LOCALIZAÇÃO, ORIGENS DA FORTALEZA E OS SEUS PARCOS VESTÍGIOS

O castelo, símbolo maior da História da povoação, localiza-se numa colina de formação jurássica a poente da vila de Alfeizerão, concelho de Alcobaça, com as coordenadas 39°30'00.8"N 9°06'38.6"W. Trata-se da colina que se encontra à direita da estrada N242 para S. Martinho do Porto depois da igreja paroquial e cemitério público
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É PROPRIEDADE PRIVADA.

Por nunca ter sido sistematicamente escavado, só se encontram visíveis no lado norte três das suas torres com a muralha que as une, e ténues vestígios de muralha a nascente e a sul (imagem 1, a primeira de 6), todos estes poucos vestígios mergulhados em densa vegetação. O monumento encontra-se classificado como SIP – Sítio de Interesse Público e a sua última atualização à luz da legislação foi o anúncio n.º 13711 de 2012 que consagra essa classificação e fixa a sua Zona Especial de Proteção (ZEP).

A proximidade da colina às águas da laguna de Alfeizerão concedia-lhe uma posição privilegiada para uma fortificação para vigia e defesa da entrada da laguna pela abertura entre os morros do Facho e de Santa Ana. A historiografia tradicional atribui-lhe uma fundação árabe em 714 (Larcher, 1933:37) ou 717 (Leal, 1873:117), sendo mais plausível a primeira data, uma vez que no ano de 714, os árabes, entrados na Península em 711, já tinham alcançado as Astúrias, no Norte, três anos depois. No entanto, a sobrevivência nas muralhas do castelo de pedras epigrafadas romanas (Cosme, 2010:321) abre a possibilidade de aí ter existido em período anterior uma fortificação romana ou um castro.

O castelo de Alfeizerão, reconstruído após a reconquista com um perfil românico, poderá dever os cubelos circulares e semicirculares da sua fisionomia arquitetónica à sua herança árabe (Correia, 2013:75). Nos tempos da Nacionalidade, a fortaleza possuía planta quadrangular com praça de armas rodeada por seis torreões circulares, com outras duas torres mais baixas e robustas a ladear a entrada do castelo a nascente; muralhas secundárias ou barbacãs completavam a defesa a norte e a leste e uma torre de menagem de planta quadrangular com vários pisos e telhado erguia-se na praça de armas, descentrada a leste, torre de menagem ao modo de uma residência senhorial fortificada (“palácio”, é a designação atribuída pelo cronista Frei Manuel de Figueiredo em 1780 – cf. Leroux, 2020:126) e que parece ter sido retratada no esboço das ruínas da fortaleza desenhado por Charles Van Zeller em pleno século XIX.

2. SÍNTESE HISTÓRICA – DA RECONQUISTA AO SEU QUASE DESAPARECIMENTO

Segundo o historiador alcobacense Frei António Brandão, o castelo foi conquistado por D. Afonso Henriques em 1148 (Brandão, 1632, f. 185r) e integra depois o território doado pelo nosso primeiro rei à Ordem Cisterciense de Alcobaça e essa posse é recordada nas duas cartas de povoamento outorgadas pelo Mosteiro aos moradores de Alfeizerão (1332 e 1422): «E nós reservamos para nós o nosso castelo, que ora aí está situado, com todas as suas moradas e entradas e saídas e pertenças» (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Feitos da Coroa, Núcleo Antigo, 339).

As vilas de Alcobaça e Alfeizerão, por possuírem castelos, eram governadas por alcaides-mores nomeados pelo Mosteiro e encarregues da sua guarda e defesa. As duas alcaidarias-mores andaram sempre, segundo o cronista frei Manuel dos Santos «em pessoas de antiga e conhecida nobreza»; o mesmo cronista ressalva que os alcaides eram escolhidos e apresentados pelos Abades de Alcobaça, a quem rendiam preito e homenagem com ostentação e pompa («ao estilo da Real Casa de Bragança») como se de um monarca se tratasse (Santos, 1710). O alcaide-mor de Alfeizerão, teve como função inerente nos séculos XV e XVI a cobrança da dízima do pescado para o Mosteiro e a receção de mercadorias que entravam pelo porto de Alfeizerão (Gonçalves, 1989:130,166). Nas Ordenações de D. Afonso V relativo aos alcaides-mores ou Alcaides dos Castelos, além de se pormenorizar as rendas que poderia auferir e do perfil que devia apresentar (como não ser muito pobre, para não haver cobiça para enriquecer com o cargo), estipulava-se que podia nomear um alcaide pequeno para o auxiliar e cabia a este guardar e policiar a povoação, auxiliado pelos homens do alcaide, designados pelo concelho ou por um escudeiro escolhido pelo alcaide-mor, podendo os alcaides contarem ainda com um ou mais escrivães para os auxiliarem nas suas tarefas (Ordenaçoens, Livro I, títulos 30 e 62). Do alcaide pequeno encontramos para Alfeizerão outras referências explícitas mais recentes do que as do período medieval, como a de Amador Boto no período filipino (v. cronologia).

As duas fortalezas asseguravam a defesa da costa entre a Atouguia da Baleia/Peniche e a Nazaré e numa linha mais dilatada, integravam a linha de defesa a norte de Lisboa formada por castelos mais importantes como os de Leiria, Óbidos e Santarém, e cujo sistema defensivo era completado pelos dois castelos dos coutos e suas fortificações menores e pelos castelos de Torres Vedras, Atouguia, Porto de Mós e Ourém. Pela sua importância tinham de ser reparados e preparados para a guerra e cabia ao Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça a responsabilidade de reparar e manter ambos os castelos, de Alfeizerão e Alcobaça, incumbência para a qual os abades invocavam o concurso das populações dos Coutos (Gonçalves, 1989:399).

Os castelos de Alfeizerão e Alcobaça velavam pelas lagunas de Alfeizerão e Pederneira. Na laguna da Pederneira esse papel era complementado pelo castelo ou fortificação de D. Framundo, junto a Famalicão da Nazaré, e por diversas torres, parcialmente comprovadas por vestígios documentais e arqueológicos; enquanto a laguna de Alfeizerão, além do castelo em epígrafe, contava também com a torre de Salir (com evidências arqueológicas e cartográficas) e com um forte na ponta do promontório onde hoje se ergue o farol de S. Martinho do Porto e que em finais do século XVIII estava reduzida a uma “torre velha” (Tofiño de San Miguel, 1789), mas que ainda foi reconstruída em 1808 a mando do general francês Thomières no contexto da primeira invasão francesa (Neves, 1811:23-25).

O advento da artilharia anulou o valor defensivo deste e de outros castelos românicos, que foi decaindo no decurso do século XVII e início do século seguinte e, ao contrário do que é comum pensar, o castelo não desapareceu com o Grande Terramoto de 1755 porque o pároco de Alfeizerão, o prior e vigário Doutor Manuel Romão, narra três anos depois, que com o sismo tinham caído muitas partes no castelo mas ficaram nele «bastantes torres ilesas» (Cosme, 2010: 322) - e isso comprova-se pelos registos iconográficos do monumento. A explicação mais pertinente para a vasta depredação do monumento, é que ela deve ter sido inevitável após o seu abandono como reduto militar. A acessível (e fácil) cantaria das suas torres e muralhas era demasiado preciosa para ser negligenciada pelos engenheiros e obreiros de obras públicas e privadas; e se no seu local de origem quase nada se encontra do castelo de Alfeizerão, as suas antigas pedras devem subsistir ainda em muros e paredes de casas, na cantaria de pontes e fontes e na base do lajeado de docas marítimas (tradição local a respeito do cais de S. Martinho do Porto)
Em 1834, extintos os conventos religiosos masculinos, as suas propriedades e bens são nacionalizados ou, por outras palavras, incorporados na Fazenda Nacional; depois disso, os terrenos e as estruturas do castelo foram adquiridos por particulares e assim permaneceram até hoje, tendo-se tornado cada vez mais evidente ao longo dos anos que seria essencial e incontornável recuperar o monumento para a alçada do Estado para se alcançar a sua efetiva proteção, estudo científico e exploração como um ex-libris maior de interesse histórico, turístico e educativo para a vila, freguesia e região.
As coisas parecem encaminhar-se nesse sentido, estando desde março de 2023 PROPOSTO no Programa Estratégico de Reabilitação Urbana promovido pelo município, a aquisição da propriedade e a criação aí de um parque verde urbano de recreio e lazer com a reabilitação do conjunto edificado em ruínas para instalação do centro interpretativo do castelo de Alfeizerão (consultar na página do município de Alcobaça o ficheiro «R01. Projeto da ARU de Alfeizerão e Programa Estratégico de Reabilitação Urbana», p. 96).

3. A CRONOLOGIA DO CASTELO (e bibliografia do texto)

1148 - Em obra publicada em 1632, Frei António Brandão narra a conquista por D. Afonso I dos Castelos entre Lisboa e Leiria em 1148. Depois de tomado Óbidos, Torres Vedras e Alenquer, conquistou em seguida as vilas de Abrantes e Torres Novas. Por fim «o castelo de Penela e Ourém e outros por esta comarca mais interior, e pela parte do mar o Castelo de Porto de Mós, os de Alfeizerão [Alfeizeram], Alcobaça e a vila de Mafra» (Monarquia Lusitana, L. III, c. 24).

- (c. 1246) Na luta dinástica entre D. Sancho II e Afonso III, o Mosteiro de Alcobaça, com as suas fortalezas de Alcobaça e Alfeizerão, tomara inicialmente o partido de D. Sancho II, mas logo transferiu a sua lealdade para o seu irmão Afonso que, depois de obter do Mosteiro a garantia que as duas fortalezas seriam suas quando detivesse a posse pacífica da Coroa, não retaliou contra eles (Santos, 1710:102-103) e ainda lhes veio a conceder diversas mercês.

- No mês de maio de 1287, viajando D. Dinis de Lisboa para Coimbra na companhia da rainha, D. Isabel de Aragão, de Alenquer vieram a Óbidos e daí teve aviso o Abade de Alcobaça Dom Frei Martinho II da vizinhança dos reis, pelo que os foi esperar à sua Vila de Alfeizerão. Chegaram a Alfeizerão os dois reis a 9 do mês de junho e no Castelo da mesma vila os agasalhou o Abade com o devido esplendor a tanta Alteza; do Castelo abalaram para Alcobaça em 12 de junho (Santos, 1710:122).

- O rei D. Afonso IV esteve hospedado em Alfeizerão (certamente no seu castelo) em dois períodos distintos, a 9 de Junho de 1325 e de 11 a 23 de Julho de 1326. Comprovam-no diversas cartas lavradas e assinadas pelo rei no local, a primeira das quais, de 9 de Junho, consistia na doação de doze mil libras à rainha sua mãe, D. Isabel de Aragão *.
*“Traslados em pública-forma das cartas feitas pelo rei D. Afonso IV à rainha D. Isabel, sua mãe” (ANTT, Ordem dos Frades Menores, Província de Portugal, Convento de Santa Clara de Coimbra, Documentos particulares, mç. 3, n.º 10)

- A 8 de Janeiro de 1332, o abade D. Frei João Martins e o Tabelião Real nos Coutos de Alcobaça, Fernão d’Aires, encontram-se no castelo de Alfeizerão ("Alfeyziram") para ser lavrado um traslado ou cópia do foral em latim outorgado pelo Mosteiro a S. Martinho do Porto em 1257*.
* ANTT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 12, f. 124r

- Por duas vezes estanciou no castelo o rei D. Pedro I, em setembro de 1357, quando viajava de Óbidos para Leiria, e em agosto do ano seguinte, altura em que se redigiu em Alfeizerão o diploma em que o rei entregava o castelo de Montemor-o-Novo a Gonçalo de Alcácer (Machado, 1978).

- O seu filho, o rei D. Fernando I, alojou-se em Alfeizerão em 1375 (a 14 de outubro) e a 20 de outubro de 1382 (Rodrigues, 1978).

El-Rei D. Fernando ordenou a todos os moradores dos Coutos que deixassem de servir na aduana (reconstrução e obras) do castelo de Santarém e que, por isso, os Abades de Alcobaça podiam constrange-los (obrigá-los) a participar das obras nos castelos do seu território, Alcobaça e Alfeizerão. Quase um século depois, o rei D. Afonso V, no ano de 1450, passou um Alvará em que confirmava que competia aos Abades do mosteiro o encargo de reparar e acrescentar as torres e barreiras dos seus castelos, e que para tal, não era escuso ou isento nenhuma pessoa dos coutos de Alcobaça*.
*(Torre do Tombo, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 92, fólio 17 v.)

- Na crise de 1383-85, o Mosteiro de Alcobaça, com os seus domínios, efetivos e fortalezas, tomou o partido de D. João I: das Cortes de Coimbra «partiu também o Abade D. Frei João de Ornelas para as suas terras a se preparar, e sendo já no Mosteiro, primeiro que tudo reformou os seus Castelos, que estavam danificados do ócio da paz» (Santos,1710:212).

-Na segunda década do século XV, uma aguda contenda opôs o Mosteiro e as vilas dos coutos em torno do montado dos porcos, cuja parte devida ao Mosteiro os concelhos não queriam pagar (litígio já estudado por Iria Gonçalves, op. cit., 472-475). Em 1435, depois dos devidos pregões pelos concelhos, o abade de Alcobaça, D. Estevão de Aguiar, esperou em Alfeizerão que os representantes das vilas ali conduzissem os porcos que eram devidos ao Mosteiro, mas estes não compareceram e o conflito acentuou-se. Os oficiais do Mosteiro haviam prendido no castelo de Alfeizerão alguns criadores de porcos, por causa da lande e da madeira que os seus animais haviam consumido nas matas. Estando presente no castelo, o Abade foi às casas onde estavam encarcerados esses criadores e ouviu as suas súplicas para serem libertados e em seu nome intercedeu o Ouvidor dos Coutos, Rui Fernandes, pedindo ao Abade que os soltasse, que ele se oferecia por seu fiador. E acedendo a isso, o abade ordenou ao alcaide, Martim Anes, que os trouxesse à sua presença e anunciou-lhes que seriam soltos, contando em troca que eles se corrigissem. Os criadores presos no castelo de Alfeizerão, provinham das seguintes terras: Cela, Évora, Turquel, Carvalhal e Barrantes*
* ANTT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 12, f. 124r

- Em datas coincidentes, 10 de Dezembro de 1434, ocorre o nome de outro alcaide, Afonso Vicente, este certamente o alcaide-mor da vila, que é arrolado entre as testemunhas de uma carta de sesmaria do Mosteiro a Afonso Pires sobre um juncal abaixo da ponte de Alfeizerão *.
* ANTT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 12, f. 133-133v.

- Em 1440, data do traslado do segundo foral de Alfeizerão, encontramos à mesma entre as testemunhas o nome do alcaide pequeno, Martim Anes, enquanto o alcaide-mor ou alcaide do castelo é já João Afonso, designado no documento como «criado do dito senhor dom abade e alcaide do castelo» *. Em 1443, o alcaide e monteiro João Afonso será acusado de recolher à força de uns pescadores de S. Martinho o dízimo da sardinha que era devida ao Mosteiro, acusação pela qual é chamado à Corte para se justificar, juntamente com o escrivão do Mosteiro e o padre celeireiro, sendo aí ilibado da queixa que pendia sobre si **.
* ANTT, Feitos da Coroa, Núcleo Antigo, 339
** ANTT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 92, f. 34r

- O infante D. Pedro, também estanciou no castelo, como nos conta o cronista Rui de Pina: em 1439, viajando de Coimbra para as Cortes que se iriam realizar em Lisboa, D. Pedro é interpelado em Alfeizerão por um enviado da rainha, que lhe transmite a solicitação da rainha para que regresse sem demora a Lisboa, apresentando o argumento de «a Vila não ser capaz de seu aposentamento, e menos abastada para vos manter” (Pina, 1971).

- Em 1460, decorrem obras de reconstrução das muralhas do castelo (Larcher, 1907).

- O rei D. João II alojou-se no castelo de Alfeizerão em agosto de 1485 (Serrão, 1975).

- No foral manuelino da Cela Nova de 1 de outubro de 1515 *, para que não restem dúvidas, particulariza-se na secção do foral intitulado "Obras dos Muros" que "declaramos por este nosso foral haver-se de fazer desta maneira e que os vizinhos e os moradores dos ditos coutos sirvam por mandato do abade do dito mosteiro ou dos seus oficiais daqui em diante nas obras e muros das ditas suas fortalezas, como até aqui fizeram".
* DGLAB/BMA, FLCR 352 FOR, fls. 14r-14v

- Neste castelo terá residido o cardeal-infante D. Afonso no tempo em que foi Abade do Mosteiro de Alcobaça (1519-1540) quem o afirma é o padre Luís Cardoso em meados do século 18 no seu Dicionário Geográfico (1747): «Tem Castelo, arruinado parte dele, e ainda existem os sobrados das casas, em que assistiu [onde residiu] o Cardeal Infante». E ao descrever a igreja matriz de S. João Batista, narra o mesmo sacerdote: «tem a Ermida três Altares, no maior está um Santo Cristo, Imagem devotíssima, que dizem deu o Cardeal Infante, quando assistiu no Castelo desta Vila» (Cardoso, 1747:279).

- Nos anos de 1532 a 1533, o abade de Claraval, Dom Edme de Saulieu e o seu secretário, frei Claude de Bronseval, iniciam uma viagem pelos mosteiros cistercienses de Portugal e Espanha com o objetivo de comprovarem o cumprimento das regras da Ordem de Cister. Em Portugal, visitam Alfeizerão (a que chamam “Lezeram”) e o seu castelo durante a viagem entre Óbidos e Alcobaça, pernoitando no castelo entre os dias 10 e 11 de novembro de 1532. Narra frei Claude de Bronseval: «Vimos aí uma fortaleza, que pertence a Alcobaça, para onde os abades têm, por vezes, o costume de se retirar, porque dista apenas duas léguas do mosteiro. Nós fomos aí pobremente alojados e tratados. Deitamo-nos sobre o chão, à maneira do país, e não encontramos carne para nós» (Cocheril, 1986).

- No reinado de D. João III, João Fernandes, carpinteiro morador em Alcobaça, tinha recebido de empreitada as obras de carpintaria do castelo de Alfeizerão. Quem o refere é o Dicionário de Sousa Viterbo, que diz que este nome aparece numa carta de perdão (de 13 de Abril de 1538) concedida a António Fernandes de Arca, um lavrador de Alfeizerão que fora acusado de arrancar madeiras do castelo de Alfeizerão, mas que alegara que o tinha feito por indicação de João Fernandes, o que se comprovou (Viterbo, 1899:566).

- «Os abades de Alcobaça residiram muitas vezes nesta fortaleza (…) O comendatário D. Henrique o habitou também» (Larcher, 1907:207) – o Cardeal D. Henrique foi abade de 1542 a 1580.

- Em 1581, era alcaide-mor de Alfeizerão Diogo Botelho da Silveira, recebendo a tença de 12.000 réis, segundo informação do Livro da Fazenda do Cardeal D. Henrique relativo a esse ano (Caetano de Sousa, 1748: 642). Diogo Botelho da Silveira, Cavaleiro da Casa Real, foi apresentado como alcaide-mor no ano de 1579*.
* ANTT, Santa Maria de Alcobaça, liv. 8, fl. 118

- A 31 de Março de 1611, o rei D. Filipe II faz mercê do cargo de alcaide (mor) de Alfeizerão a Amador Boto que “até ora serviu de alcaide pequeno da dita vila” *.
* ANTT, Chancelaria de D. Filipe II, liv. 16, f. 39r.

- 1625 – Nesta data o alcaide-mor é Silvério Salvado de Morais, morador em Alcobaça e Cavaleiro da Ordem de Cristo, casado com Micaela da Silva da Fonseca, de nobres famílias da Guarda e sobrinha do lado paterno de Pedro da Silva de Sampaio, que foi Inquisidor em Lisboa e, a partir de 1632, bispo de São Salvador da Baía (Coutinho, 12/2021).
- Com a morte de Silvério Salvado de Morais e sendo menor o seu filho, Silvério da Silva da Fonseca, é este Pedro da Silva de Sampaio quem detém o cargo de alcaide-mor interino de Alfeizerão. A alcaidaria é ainda entregue pelo mosteiro a Francisco da Silva da Fonseca, pai de Micaela da Silva da Fonseca, antes de ser confiada por fim a Silvério da Silva da Fonseca, ainda menor, mas sob a tutela de sua mãe. Quando Francisco da Silva da Fonseca é investido no cargo a 27 de junho de 1630, declara o auto de posse ao novo alcaide-mor que estavam vigadas as casas do castelo e a grande com 18 vigas muito fortes capazes de duração (Larcher, 1907: 227).
- Silvério da Silva da Fonseca, Fidalgo da Casa Real e senhor da Casa de Alcobaça, casa-se com Maria Teresa de Ayala e Toledo. A Silvério da Silva da Fonseca sucede em 1675 no cargo de alcaide-mor de Alfeizerão o seu filho primogénito, Pedro da Silva da Fonseca Salvado, e depois deste, o seu neto, Silvério da Silva da Fonseca Salvado. É a este Silvério da Silva que deve aludir um documento do cartório do Mosteiro, o «Livro das Folhas de Receita e Despesa no Triénio do Padre Geral Frei João Osório», onde se regista que o Mosteiro deve a Silvério da Silva da Fonseca a importância de 84.000 réis relativos ao atraso no pagamento do seu ordenado dos anos de 1683 a 1689 como alcaide-mor de Alfeizerão, o que corresponde a 12.000 réis por ano*.
* ANTT, Ordem de Cister, Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, liv. 203

- Em 1721, nas Notícias Remetidas à Academia Real da História Portuguesa de Lisboa pelo Provedor da Comarca de Leiria, Brás Raposo da Fonseca, reproduz-se o relatório do ouvidor da comarca, Cristóvão de Sá Nogueira, que no seu périplo visita o castelo de Alfeizerão e menciona os letreiros romanos que encontra nas casas do seu interior: «E no Castelo da dita vila à entrada da terceira porta a mão direita está uma pedra no chão com um Letreiro com oito Regras (…) No mesmo Castelo, e porta acima da dita, dentro na parede está uma pedra que tem quatro palmos de comprido cujos caracteres se não puderam copiar» *.
* DGLAB/BGUC – Ms. 503, fl. 82v

- Na viragem do século, Bernardo de Freitas e Sampaio é apresentado em 1695 pelo mosteiro de Alcobaça como alcaide-mor do castelo e vila de Alfeizerão, os dois ramos da sua ascendência provinham de Lisboa e de Castelo de Vide, tendo ele nascido nesta povoação alentejana. Sendo legítimas as dúvidas sobre o real estado do castelo e do seu “palácio” para residência dos abades e visitantes ilustres, o cargo de alcaide-mor será mantido durante um século no seio desta família. Em 1738, Bernardo de Freitas e Sampaio renuncia ao cargo e é nomeado o seu filho primogénito, o sargento-mor João Carlos de Freitas e Sampaio e em seguida o cargo transita para os irmãos deste – em 1765 para António Félix da Silva Barradas e em 1769 para José Joaquim de Freitas e Sampaio, que ainda detinha esse cargo em 1792, data de um requerimento dirigido à rainha, no qual se subscreve como “Alcaide-mor do castelo e vila de Alfeizerão” (Coutinho, 12/2021).

- Em períodos coincidentes com os alcaides-mores desta família, temos notícia de dois alcaides (menores ou pequenos) nesta vila. Manuel Pereira, “alcaide desta vila”, que a 27 de agosto é padrinho de batismo de uma criança exposta de nome Francisco e, no ano seguinte, o seu nome é mencionado no assento de batismo do seu próprio filho, Paulo, a 21 de fevereiro de 1707 *. A 19 de Novembro de 1767, no batismo de André, filho de Manuel Gomes Zanga e Maria Pinto da freguesia das Caldas, o padrinho é «João Pereira, alcaide atual desta vila» **.
* DGLAB/ADLRA, IV/24/B/31, Registos de batismo da freguesia de Alfeizerão: 1697-1737, fls. 47r e 50v
** DGLAB/ADLRA, IV/24/B/32, Registos de batismo da freguesia de Alfeizerão: 1737-1771, f. 66r

- No sismo de 1 de novembro de 1755, conforme narra o pároco de Alfeizerão, Doutor Manuel Romão, bastantes torres do castelo tinham ficado ilesas, castelo que ele descreve como “alto, forte e antigo” (Cosme, 2010: 322). A iconografia novecentista sobre o castelo, permite constatar que o castelo se manteve bem conservado até datas muito próximas de nós. Em 1788, frei Manuel de Figueiredo visita-o e faz uma descrição do que ele fora e do estado em que se encontrava, narra que a muralha a nascente que rodeava a entrada do castelo se acha reduzida (ruíra), mas menciona ainda o “Palácio em que muitas vezes se aquartelavam os Reis” com várias divisões, portas e uma cisterna (Leroux, 2020: 126).

- O penúltimo Alcaide-mor de Alfeizerão parece ter sido José Teixeira Coelho Vieira de Queirós, apresentado como alcaide de Alfeizerão numa data que não pudemos precisar. Por desistência que fez do cargo, foi nomeado o seu filho, António Teixeira Coelho Vieira de Queirós, cujo solene Preito de Homenagem se realizou a 16 de abril de 1825. Esta família era possuidora da Quinta da Gandra ou Casa da Gandra, propriedade extensa situada no lugar do mesmo nome, na freguesia de Guilhufe, Penafiel. Pelejando nas guerras liberais pelo partido de D. Miguel, são presos em Penafiel e conhecerão o cárcere até 1837, data em que são soltos e a seu tempo regressam à propriedade da família na Casa da Gandra (Coutinho, 12/2021).

- A 30 de Maio de 1834, o Ministro dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, Joaquim António de Aguiar (o “Mata-Frades”), promulga o decreto que extingue «todos os Conventos, Mosteiros, Colégios, Hospícios e quaisquer Casas de Religiosos de todas as Ordens Regulares» (Artigo Primeiro), e os seus bens móveis e imóveis (como o castelo de Alfeizerão e os seus terrenos), revertem para o Estado e «ficam incorporados nos próprios da Fazenda Nacional» (Artigo Segundo) (ALMEIDA, 1970).

[Abreviaturas bibliográficas: DGLAB: Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas | ADLRA: Arquivo Distrital de Leiria | IAN/TT: Arquivo Nacional da Torre do Tombo | BGUC: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra | BMA: Biblioteca Municipal de Alcobaça]


CRÉDITOS:
Este texto explicativo foi elaborado por
BAÚ DE MEMÓRIAS DE ALFEIZERÃO – ESPAÇO CULTURAL, em cuja biblioteca existem vários livros sobre História e História local.
O Baú de Memórias localiza-se na Rua 25 de Abril, n.º 116, 2460-162 Alfeizerão e é uma valência da JUNTA DE FREGUESIA DE ALFEIZERÃO


LEGENDA EXTENSA DAS 6 IMAGENS APENSAS:
Figura 1:
“Planta das Ruínas do Castelo de Alfeizerão” com a escala de 0-10 metros na margem inferior. Pertence ao espólio do SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, e ainda que não esteja datado, é provável que tenha sido criado na primeira metade do século XX
Figura 2:
Miniatura da fachada nascente do castelo, com a entrada por uma porta com arco elíptico numa muralha ameada entre torreões. Foi desenhada numa planta cadastral dos campos de Alfeizerão (de cerca do ano 1700)
(Fonte: "Planta do Campo que possui Pedro da Silva da Foncequa, em Alfeizarão" (detalhe), Biblioteca Nacional de Portugal, C. O. Cx. 6-1)
Figura 3:
Gravura do castelo de Alfeizerão ou “Alfagirão” (1825), baseada num desenho a lápis realizado no local em 1794 por William Beckford, aristocrata e escritor inglês.
(Fonte: William Beckford – «The Travel-Diaries of William Beckford of Fonthill», Ed. Guy Chapman, University Press, Cambridge, 1928)
Figura 4:
Desenho do castelo de Alfeizerão realizado pelo sargento-mor engenheiro José Monteiro de Carvalho (BNP, D-156-R), inserido com outros desenhos e plantas de castelos na moldura da “Carta Geográfica da Província da Estremadura…”. O desenho deverá basear-se num esboço de Monteiro de Carvalho feito no local antes do grande terramoto de 1 de Novembro de 1755.
Figura 5:
Croquis do castelo de Alfeizerão executado em 1834 por Carlos Van Zeller, militar nascido em Inglaterra de pais portugueses e que combateu pelas forças liberais de D. Pedro IV.
(Fonte: Vasco Valente – “Carlos Van Zeller, artista português da primeira metade do século XIX”, in Boletim da Academia Nacional de Belas Artes, n.º XI, p. 52-56, Lisboa, 1942)
Figura 6:
Pontos comuns entre os desenhos de Monteiro de Carvalho e Carlos Van Zeller da fachada poente do castelo: a muralha barbacã (I), primeira linha de defesa que, iniciada na torre a noroeste, resguardava todo o perímetro da fachada virada a norte | as duas torres a oeste (II e III) e a muralha descontínua que as unia | um muro (VI) reforçado por duas torrelas (V) que sustentavam a mota de terras encostadas à muralha poente | no desenho de Van Zeller a dúvida se ele quis representar em a), a muralha sul do castelo ou o “palácio” ou residência senhorial fortificada descrita por Frei Figueiredo 45 anos antes.

FONTES:
- «Ordenaçoens do Senhor rey D. Affonso V», Livro I, Coimbra, Real Imprensa da Universidade, 1792
ALMEIDA, Fortunato De - História da Igreja em Portugal. Porto: Livraria Civilização Ed., 1970
BARROCA, Mário Jorge - Do castelo da reconquista ao castelo românico (séc. IX a XII), Porto : Universidade do Porto. Faculdade de Letras, 1990
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